.

.
Imagem da reflejosdeluz.net

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Oração de Natal de um órfão de guerra


 

Oração de Natal de um órfão de guerra
Orlando Cavalcanti
 
Papai Noel, você que não se atrasa
Na visita anual que faz à Terra,
Veja se faz voltar à minha casa
O meu papai que foi brigar na guerra.
 
Você que pode muito mais que a gente
E que tem uma força sem igual,
Bem que podia dar-me este presente
Na noite milagrosa do Natal.
 
Eu tenho um coração como uma brasa
Nesta hora triste em que rezar eu venho.
Todos têm o seu papai em casa,
Só eu, Papai Noel, é que não tenho.
 
Ele partiu numa noite estranha
Que da lembrança nunca mais me sai;
Disse que ia brigar lá na Alemanha
E desde então não vejo mais papai.
 
Ele escrevia sempre. Mamãe lia
Suas cartas baixinho, devagar...
“Eu voltarei em breve”, ele dizia
Que esta guerra está prestes a acabar.
 
Depois, passaram meses, muitos dias,
Notícia alguma de papai nos veio
E mamãe, na maior das agonias,
Esperava a passagem do correio.
 
Nada vinha. O silêncio era completo
E a razão até hoje eu não sei bem.
Mamãe passou a se vestir de preto
E nunca mais sorriu para ninguém.
 
Até que enfim com a última batalha
– Só de pensar o coração me dói –
O correio nos trouxe uma medalha
Com as cinco letras da palavra “HEROI”.
 
Por que será, Papai Noel? Me arrasa
Essa coisa que a alma me corrói
Se os tais heróis não voltam para casa
Será que vale a pena ser herói?
 
Papai Noel, meu santo e bom paizinho,
Me dê o presente e acabe com a revolta,
Eu sei que você vai dar um jeitinho
E me mandar o meu papai de volta.
 
E dormiu abraçado a um retrato,
Sonhando sonhos de venturas mil,
E encontrou de manhã no seu sapato
Uma enorme bandeira do BRASIL!
 
[imagem bandeira: Henfil - na última estrela o cadente sonho]

Nenhum comentário:

Postar um comentário