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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Oração a Deus sobre a tolerância


Já não é aos homens que me dirijo, é a ti, Deus de todos os seres, se é que é permitido a criaturas frágeis perdidas na imensidão, e imperceptíveis ao resto do universo, atreverem-se a pedir-te alguma coisa, a ti que tudo deste, a ti cujas leis são imutáveis como eternas. Tem piedade dos erros que fazem parte da nossa natureza: que esses erros não sejam as nossas desgraças.
Não nos deste um coração para odiarmos nem uma mão para degolarmos; faz com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida penosa e passageira; que as pequenas diferenças entre as roupas que cobrem o nosso corpo débil, entre todas as nossas línguas insuficientes, entre todos os nossos hábitos ridículos, entre todas as nossas leis imperfeitas, entre todas as nossas opiniões insensatas, entre todas as nossas situações tão desproporcionadas aos nossos olhos e tão iguais aos teus; que todas essas pequenas diferenças que distinguem os átomos chamados homens não sejam sinais de ódio nem de perseguição...
Que todos os homens possam lembrar-se de que são irmãos! Que tenham horror à tirania exercida sobre as almas, assim como detestam a depredação que arrebata pela força o fruto do trabalho e da indústria tranquila!
Se as calamidades da guerra são inevitáveis, não nos odiemos, não nos destruamos uns aos outros no seio da paz, e utilizemos a nossa existência para abençoarmos igualmente, em mil línguas diferentes, do Sião a Califórnia, a tua bondade que nos concedeu nesse instante!


“Tratado da Tolerância” de Voltaire, 1763

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